O princípio

Último ano de faculdade, muitas obrigações, stress no auge… e eis que aparece um pequeno probleminha na fala… Mas tudo bem, com certeza é emocional! Até se tornar repetitivo demais, surgir nas mais diversas situações, durar tanto tempo… Não podia ser normal!
Ao conversar em casa, recebi diferentes respostas: “É stress, para de se preocupar tanto com tudo!”;  “Vamos procurar um médico, isso não está certo”. E Deus derramou suas bênçãos sobre mim: conseguir um horário com o médico era bastante difícil, mas eu consegui! E não foi qualquer médico, foi meu anjo da guarda! Depois de ter realizado eletroencefalograma, tomografia e outros exames neurológicos sem qualquer alteração, o doutor pediu uma ressonância magnética por desencargo de consciência. Ele poderia ter parado antes e ter dito que era emocional, mas escolheu ir até o fim nessa busca!
No momento em que recebi a ligação do meu pai me pedindo pra voltar pra casa porque o exame apresentou um resultado diferente do esperado, tremi inteira. O frio de maio parecia estar dentro de mim quando ouvi o médico dizer que poderia ser esclerose múltipla.
A palavra esclerose era conhecida por mim apenas de maneira pejorativa, aquela usada para se referir a pessoas que não estão muito bem cognitivamente… Eu tinha muitos planos pro futuro, mestrado, doutorado, minha vida intelectual não podia acabar assim! Sim, era muita ignorância para uma pessoa só! Eu não sabia nada sobre a doença, aliás, sobre a área da saúde em geral!
E esse mundo novo começou a se abrir para mim, me oferecendo tantas coisas novas ainda para descobrir! Sabe aquele conhecido preconceito em relação ao sistema público de saúde (SUS)? Foi o primeiro a ruir! Conheci excelentes médicos especializados no cuidado da EM, que me apresentaram uma série de tratamentos a escolher! Mais uma vez guiada por Deus, escolhi o Copaxone (Acetato de Glatirâmer), por um simples motivo: devia ser tomado diariamente, assim eu não esqueceria!

Mas todo começo é difícil, não é mesmo? O único assunto que me passava pela cabeça durante o dia todo era a aplicação do remédio, subcutâneo. As pessoas tentavam me animar dizendo que conheciam alguém que tem a doença e nem se lembra, porque a vida continua normalmente, porém isso só aumentava a minha angústia… “Fácil falar, não é você que tem tomar injeção todo dia!”, esse foi o pensamento que eu alimentei no primeiro mês, talvez no segundo e no terceiro também!
Infelizmente, a maturidade só vem com o tempo, e eu precisei de muito tempo para conseguir conviver bem com a doença… Hoje, eu ainda tenho alguns ressentimentos com a esclerose, mas estou aprendendo a lidar melhor com ela! Foi por isso que decidi criar esse blog, uma espécie de trégua entre nós duas, para aprendermos a nos amar reciprocamente! Isso mesmo, EU AMO A ESCLEROSE MÚLTIPLA! Ela me ensinou que eu não posso controlar minha vida, e é melhor assim, sendo surpreendida! Me ensinou que são nas tristezas que nós encontramos felicidade, amizade, esperança!
Além disso, a leitura de um livro escrito por um neurologista, me ofereceu uma visão de mundo que eu nunca tinha imaginado. Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte, me mostrou que, dentro das minhas limitações, eu, como paciente de uma doença neurológica, tenho um mundo novo, só meu, e sou privilegiada por tê-lo, mesmo que ele não seja igual ao das outras pessoas! Elas, inclusive, é que têm algo a menos, pois não conhecem a minha visão!
Contei aqui as minhas primeiras experiências com a esclerose, pois espero que esse blog possa ajudar pessoas que, assim como eu, foram surpreendidas pela notícia da doença e estão assutadas. Não fiquem, essa é apenas uma chance que Deus nos deu para evoluirmos nosso espírito!
Nos próximos posts colocarei telefones e endereços úteis para nós, além de notícias recentes!
Como citei Sacks acima, finalizo com uma reflexão dele:
“O que sabemos é que ao se fecharem as janelas químicas, outro despertar aconteceu. O espírito humano é mais forte que qualquer remédio. E é isso que precisa ser alimentado por meio do trabalho, lazer, da amizade e da família. Isso é o que importa. Foi disso que nos esquecemos. Das coisas mais simples.”

7 comentários

  1. Como fiquei emocionada em ler suas palavras sobre a sua história!! Tem coisas que precisamos dizer, as vezes gritar bem alto pra aliviar o nosso coração! É isso que vc está fazendo neste blog!! Te admiro muito por enfrentar o problema e transforma-lo em solução!!! Parabéns!!!

  2. Muito emocionante e tocante. Acredito que o relato impacta outras pessoas, aquelas que não tem nenhuma doença ou problema físico.

    Sua frase “me ensinou que eu não posso controlar minha vida, e é melhor assim, sendo surpreendida!” coincide totalmente com o que estou passando hoje, com o que estou tentando aprender, aos trancos e barrancos.

    Parabéns pela iniciativa e pela lição. Um beijo enorme

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