Oliver Sacks, o médico… e terapeuta!

Eu ouvi falar do doutor Sacks pela primeira vez em uma aula de licenciatura, provavelmente em 2008 ou 2009, quando não conhecia nem imaginava que um dia teria uma doença autoimune. A professora falou que ele era um grande escritor, que apresentava novos olhares sobre assuntos desconhecidos para a maioria de nós. Fiquei muito animada com essas palavras e retirei o livro da biblioteca, crente que o leria! Mas fui atropelada pela rotina e pelos compromissos da graduação e não tive tempo de ler… Anos depois, a vida de recém formada e a de profissional iniciante me fizeram esquecer que um dia ouvi falar desse autor.

Os caminhos novos que decidi tomar no ano passado me fizeram entrar em contato com o mesmo livro novamente: “Um Antropólogo em Marte”. O Prefácio já me fez perceber que eu não era uma vítima dessa doença, mas sim uma pessoa privilegiada, pois a doença não me tirou nada! Ao ler a experiência daqueles que tiveram suas vidas muito alteradas com patologias neurológicas, e a análise que o médico fazia de cada caso, me senti tocada e estimulada a refletir sobre mim mesma. A história que mais me marcou foi a do pintor daltônico, pois eu, assim como o senhor I., tinha uma curiosidade intensa sobre o que se passava no cérebro.

Além disso, os óculos feitos especialmente para ele não restauraram sua visão de cores, mas ajudaram-no a distinguir melhor os contornos, podendo, portanto, se adaptar mais. Logo pensei nos medicamentos da EM: não vão nos curar ou fazer com que vivamos da mesma forma que antes, mas são os “óculos” que nos auxiliam na nossa adaptação! 

Segundo Sacks, a sensação de perda fez com que o senhor I. achasse seu mundo visual modificado abominável e anormal. “Mas aí, com a aurora ‘apocalíptica’, e a pintura que fez dela, surgiu o primeiro sinal de mudança, um impulso de reconstruir o mundo, de reconstruir sua sensibilidade e identidade. Parte disso era consciente e deliberado: reeducar seus olhos (e mãos) para funcionar, como fizera em seus primeiros tempos de artista. Mas boa parte se passou abaixo desse nível, num nível de processamento neuronial não diretamente acessível à consciência ou ao controle. Nesse sentido, começou a ser redefinido pelo que lhe acontecera – redefinido fisiológica, psicológica e esteticamente -, e com isso veio uma transformação dos valores, de forma que a completa estranheza e a alienação da sua V1, que de início tinha uma qualidade de horror e pesadelo, adquiriram, para ele, um estranho fascínio e beleza.”

Eu percebo que essa transformação psicológica ocorreu comigo, pois também via com grande peso a doença, e hoje a aceito. Meu corpo, do mesmo modo, deve ter passado por mudanças, já que hoje estou bastante adaptada, quase não noto qualquer perda vinda da EM. A leitura do livro tornou claro aquilo que já acontecia dentro de mim, abrindo portas para uma posição conscientemente diferente frente à vida!

Eu fiquei tão animada quando me dei conta disso que mandei um email ao doutor Sacks, agradecendo-o pela grande ajuda! Devemos sempre ter gratidão por aqueles que nos oferecem a mão, e uma forma que encontrei de retribuir foi passando suas palavras adiante. Espero que ele possa ser um auxílio para muitos que ainda estão perdidos! Essa força está no interior de cada um de nós, mas é sempre bom contar com o apoio de alguém!

Obrigada doutor Sacks!

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